ACT 14 - Resumos
A Nostalgia de um Património Desaparecido: uma Obra Emblemática de Encomenda Régia na Lisboa do XVIII: A Real Ópera do Tejo

Alexandra Trindade Gago da Câmara
Universidade Aberta

A 1 de Novembro de 1755 a cidade capital de Portugal foi sacudida por um violento cataclismo que causou a morte a milhares de pessoas e a destruição de centenas de edifícios. Entre estes estava um que então era considerado a maior e a melhor «casa de música» da Europa: a Ópera do Tejo. Que havia sido inaugurada... a 2 de Abril desse mesmo ano!
Durou, pois, apenas sete meses a «vida» de uma estrutura, de uma obra arquitectónica,. O Teatro Real do Paço da Ribeira - que ficaria conhecido por Ópera do Tejo por, claro, ficar situado junto ao rio, num espaço entre os actuais Terreiro do Paço/Praça do Comércio e Cais do Sodré, mais ou menos onde está hoje o Arsenal da Marinha – foi erigido por iniciativa do Rei D. José. Os poucos documentos existentes sobre o edifício – textos descritivos, testemunhos de nacionais e de estrangeiros, plantas (projectos), e desenhos tanto de antes como de depois (após o terramoto) – coincidem no salientar da sua imponência e sumptuosidade, no realçar da sua superioridade tanto estética como técnica em comparação com tudo o que se havia feito no género até aí. A estreia decorreu ao som da ópera de David Perez «Alessandro nell’Indie», cuja encenação requeria, a dado momento, a presença simultânea de 25 cavalos no palco! Mas não era só este o único sector do teatro com dimensões desmesuradas: a plateia teria seiscentos lugares e haveria três ou quatro ordens de camarotes, cada uma delas com oito; existiria uma extensa área de apoio sob o palco, com camarins, oficinas, e escadas para a entrada e saída dos artistas e para o acesso aos outros pisos e zonas. A Ópera do Tejo seguia a tipologia de uma edificação dita de «três volumes» - palco, plateia e átrio – e todos os que nela entravam podiam admirar as «esplêndidas decorações» em que sobressaíam as cores branca e dourada.
Propomos reconstituir virtualmente esta obra que assentará, de preferência na modelação e animação do edifício – exteriores e interiores – com recurso a sistemas e a ferramentas avançadas de computação gráfica.

 

Ópera do Tejo: Uma Possível Reconstituição Espacial e o Impacto do Terramoto numa Estrutura Cultural de Imagem

Aline Gallasch-Hall
Universidade de Lisboa

Este trabalho pretende apresentar uma reconstituição possível da Ópera do Tejo, a três dimensões, de forma a apreender a dinâmica de uma das maiores criações do arquitecto e cenógrafo régio, internacionalmente conhecido, Giovanni Carlo Bibiena.
Vindo para Lisboa por vontade do próprio monarca, Galli Bibiena acaba por petrificar a necessidade de D. José de uma renovação cultural no campo musical nessa obra arquitectónica.
Tentaremos, pois, ver uma proposta da orgânica do teatro a nível espacial e cenográfico, não esquecendo a sua importância como manifestação de poder real, submetida a uma política cultural renovada que vigorará na segunda metade de 700 e que o Terramoto não abalou. Destruiu sim as suas estruturas, mas não a sua ideologia.

 

O Teatro Romano de Lisboa ou a (In)diferença Portuguesa

Ana Cristina Martins
Faculdade de Letras, Universidade de Lisboa

A aparente indiferença demonstrada pela descoberta do Teatro Romano, em 1798, durante o processo de reconstrução da Lisboa pós-terramoto, parecia contrariar a tendência há muito observada nos restantes países europeus, então ainda profundamente absorvidos pelo movimento neoclássico, na sequência da descoberta de estações arqueológicas tão importantes, quanto a de Pompeia.
Uma indiferença que, em grande parte, radicaria na agenda política nacional da época, afastada dos ventos revolucionários de 1789, eles próprios revistos nos símbolos e signos clássicos, nomeadamente da Roma Republicana e da Grécia de Péricles, antes de o Império Romano se transformar na principal fonte de inspiração das mudanças ideológicas entretanto operadas no centro europeu.
É, pois, este caso singular, no cenário europeu de finais de setecentos, que pretendemos analisar, tendo como pano de fundo, não apenas a ausência de um verdadeiro interesse institucional pela preservação dos vestígios de antanho (agora que o Alvará joanino de 1721 fora olvidado), como, sobretudo, a agenda política prevalecente entre nós, supostamente pouco sensível ao desenvolvimento dos emergentes estudos arqueológicos, e mais empenhada em sobrepor a contemporaneidade à valência da Antiguidade, em vez de a apropriar e/ou integrar.

 

O terramoto de Lisboa: tema de uma querela

Ana Fernades
Universidade Católica Portuguesa – Viseu

Le tremblement de terre de Lisbonne du 1er novembre 1755 eut de fortes répercussions sur les mentalités européennes, en suscitant un débat non pas scientifique mais philosophique. La Providence fut alors appelée à justifier la destruction d’une ville. Quelques philosophes postulaient que même un malheur de ce genre avait sa justification dans les desseins de Dieu, tandis que d’autres soutenaient que les catastrophes naturelles étaient inévitables et devaient être acceptées car elles concouraient à l’harmonie de l’univers.
Dans son «Poème sur le désastre de Lisbonne», Voltaire répudie l’optimisme et ses trop faciles arguments concernant le mal. C’est avec indignation qu’il rejette l’idée que la souffrance des hommes puisse être admise au nom d’hypothétiques fins dernières.
Ce n’est que par l’analyse de ce texte de Voltaire que nous comprendrons la réaction de Jean-Jacques Rousseau. Tandis que le premier déclare une Providence à qui les hommes devraient s’en remettre en bénissant le mal qui les frappe, le deuxième, dans sa «Lettre sur la Providence», fonde sur la conscience du mal une révolte et l’espérance d’une réparation.
Événement destructeur, le tremblement de terre de Lisbonne fit naître une querelle entre les deux philosophes qui croyaient tous les deux à l’existence du mal mais qui cherchaient à le justifier par des arguments bien distincts.

 

Efeitos de Sentido e Efeitos de Presença do Terramoto de Lisboa de 1755 em Lillias Fraser, de Hélia Correia

Ana Filipa Prata
Faculdade de Letras, Universidade de Lisboa

O romance Lillias Fraser (2001), de Hélia Correia, é uma das obras da literatura portuguesa contemporânea, a par de Mensageiros secundários, de Clara Pinto Correia, e A Invenção do Mundo, de Luís Rosa, que nos apresenta uma visão particular da grande tragédia natural que assombrou Lisboa no ano de 1755.
Mais que um fenómeno natural, esta catástrofe representa um momento de grande importância cultural, visto que vem instaurar um sentimento de descrença em relação ao optimismo do pensamento racionalista do século das Luzes. Procurarei, assim, na minha comunicação, analisar a forma como Hélia Correia nos apresenta esta dimensão complexa da catástrofe, ao equacionar conceitos como a imprevisibilidade e o desconhecido, ou o racional e o irracional, aos quais a personagem principal de Lillias Fraser, contariamente às outras, reage de forma especial, dadas as suas características extraordinárias. Procurarei ainda abordar as diferentes formas de entendimento do terramoto sugeridas no livro, partindo dos conceitos de sentido e de presença, propostos por Hans Ulrich Gumbrecht no seu livro Production of Presence – What meaning cannot convey, de forma a dar conta, por um lado, da existência de uma dimensão interpretativa, que se revela na procura de justificações para a catástrofe, e por outro, da existência de uma dimensão presencial e substancial do trágico acentecimento, que apenas a personagem homónima de Lillias Fraser é capaz de compreender.

 

As Vésperas do Terramoto pelo Olhar de um Francês

Ana Leitão
Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa

Fruto de um trabalho de investigação tecido em torno da descrição de Lisboa por Chevalier des Courtils em Junho de 1755, a presente comunicação assume-se como um contributo vital para a história desta capital.
Mais do que uma mera análise textual no âmbito da Literatura de Viagens, ou até de uma simples enumeração das informações apontadas pelo autor, pretende-se atestar a veracidade das mesmas, confrontando-as com estudos recentes na área da historiografia relativos à cidade de Lisboa.
Trata-se de um desafio simultaneamente gigantesco e aliciante, dada a variedade e diversidade de referências deste jovem guarda da Marinha francesa quanto à arquitectura e sociedade da capital portuguesa, bem como localidades adjacentes, meses antes da gigantesca catástrofe.

 

Ecos da Desventura: o Terramoto de 1755 nos Anos de Novecentos

Ana Sofia Calado
Universidade de Louisville, EUA

O terramoto de 1755 marcou indelevelmente a cidade de Lisboa, sob as mais diversas formas. Testemunho do alcance das profundas cicatrizes legadas pelos trágicos acontecimentos desse famoso primeiro dia de Novembro é, sem dúvida, o acervo de obras literárias que o reverbera, mesmo longos anos passados. Efectivamente, a presença do sismo de Lisboa regista-se ainda em obras da Literatura Portuguesa do século XX, em autores tão distintos como Hélia Correia, David Mourão-Ferreira ou Maria Velho da Costa, entre outros.
Vejamos, de modo necessariamente sumário, um desses exemplos: o poema “Grinalda para o próximo terramoto de Lisboa”, de David Mourão-Ferreira. Nesta composição, da década de 50, é desde logo o título que nos transporta no tempo, em sentidos opostos: se de imediato identificamos a menção “terramoto de Lisboa” com a tragédia que se abateu sobre a cidade a 1 de Novembro de 1755, somos simultaneamente enviados para um ignoto futuro em que tal se repetirá (“próximo terramoto”). Não iniciando sequer a leitura do poema, é ainda o título que convoca o espectro da morte – para além da referência à catástrofe do estremecimento da Terra -, ao metamorfosear esta mesma composição numa “grinalda”, depositada junto da sepultura da cidade, rememorada e lamentada pelo sujeito. Aproximando passado e futuro, o poema traz-nos afinal a um presente dilacerado pelo temor de uma nova catástrofe, que arrastará consigo talvez mesmo o fim dos tempos, num incontestável tom apocalíptico.
Outros autores do século XX evocam o terramoto de Lisboa, em diferentes contextos, sob variadas formas, entrelaçando outros fios – que procurarei revelar na minha comunicação, realizando não apenas um périplo por diversos textos que ao terramoto de 1755 se referem, como também uma reflexão sobre a forma que esse registo assume, as preocupações que ecoa, os elos que estabelece.

 

O Significado do Sismo de Lisboa de 1755 no Contexto Genésico da Actual Gestão do Risco

A. Betâmio de Almeida
Instituto Superior Técnico

A ocorrência em meados do séc. XVIII e numa cidade da Europa (Lisboa), de um sismo devastador associado a um maremoto de grande magnitude, deu origem a um conjunto de reacções do maior interesse na perspectiva histórica do conhecimento científico, da reflexão filosófica e moral e da estruturação de medidas mitigadoras em situação de crise.
As acções desenvolvidas após o desastre e os debates publicados e que tiveram lugar na Europa, na sequência do sismo de 1755, são elementos muito interessantes que podem ser interpretados como génese da problemática dos actuais componentes da gestão do risco: a análise e o controlo e mitigação do risco.
A comunicação constitui uma síntese de um trabalho elaborado pelo autor no âmbito do curso de mestrado em Filosofia e História da Ciência da Universidade Nova de Lisboa e aborda as diversas vertentes do impacto produzido pelo sismo de Lisboa na sociedade da época, através de uma leitura estruturada nos conceitos actuais das disciplinas da gestão do risco e de filosofia do risco.

 

A Recuperação da Memória Perdida. A Incidência do Terramoto de Lisboa no Património Cultural da Província de Ourense (Galiza, Espanha).

Begoña Fernández Rodriguez
Universidade de Santiago de Compostela

O terramoto de Lisboa, ocorrido à primeira hora da manhã do dia 1 de Novembro de 1755, festividade de Todos os Santos, passou à História como um dos fenómenos mais trágicos, não só pela sua intensidade, o seu grande número de vítimas e destruições, como também porque os seus efeitos foram sentidos em várias partes do mundo.
O facto de a Península Ibérica, juntamente com o Norte de África, foram algumas das zonas mais afectadas pelo sismo, que perturbou especialmente Portugal, originando o próprio terramoto e o incêndio subsequente a destruição de boa parte da sua capital, levou o monarca espanhol, D. Fernando VI, casado com uma princesa portuguesa, D. Maria Bárbara de Bragança, ao ordenar ao Governador do Supremo conselho Geral de Castela, a realização de um inquerimento sobre os danos sofridos nos povoados e outros lugares do Reino como consequência do mesmo.
Os dados apurados pelas respostas permitem avaliar a incidência do terramoto em zonas geográficas específicas como o caso da Província de Ourense, em que até à data não foram estudadas. Não só a nível de danos pessoais, como também a nível de sua incidência no campo do Património Cultural, já que o conhecimento da sua dimensão não só permite avaliar os danos como também as medidas adoptadas para a sua recuperação, ao que esta dupla valorização, recuperará uma parte da nossa memória, que até ao momento permanecem no esquecimento.

 

"Das Erdbeben in Chili" de Heinrich von Kleist e o Terramoto de Lisboa

Carlos Guimarães
Faculdade de Letras, Universidade de Coimbra

Não é por acaso que utilizo o termo repinte- e não palimpsesto- para designar a novela de Kleist, publicada pela primeira vez em 1807 sob o título "Jeronimo und Josephe. Eine Scene aus dem Erdbeben zu Chili, vom Jahr 1647". Se título(s) e incipit não
parecem deixar margem para dúvidas, estudos de diferentes autores demonstram à evidência que Kleist tinha bem presente o terramoto de Lisboa de 1755 e, sobretudo, a discussão filosófica que se lhe seguiu. Qual das "camadas" nos deve merecer especial
atenção, ou se é no jogo entre elas que o texto se desvela, é a questão a que procurarei responder.

 

O Terramoto de 1755 e a sua Influência nos Ecossistemas da Laguna de Aveiro

Clara Sarmento
CESEPA e Instituto Superior de Contabilidade e Administração do Porto
Alexandre Cardoso
Faculdade de Letras, Universidade do Porto

O maremoto de 26 de Dezembro de 2004 fez-nos deparar com a realidade do profundo estado de isolamento, carência e precaridade em que ficaram as populações afectadas, quer do ponto de vista emotivo, quer do ponto de vista económico-social.
Recuando alguns séculos, confrontamos uma situação semelhante – O terramoto de 1755 – em território nacional, agravada pelo facto de estarmos numa fase de acentuado isolamento social e grandes dificuldades de comunicação, em que o centro administrativo da nossa unidade territorial fora o mais violentamente afectado.
Perante esta perspectiva, pareceu-nos interessante procurar a reconstrução paleoambiental da laguna de Aveiro e da dinâmica económico-social dependente deste ecossistema durante o séc. XVIII, nomeadamente: perceber a vivênvia pré-catástrofe, a extensão e consequências da catástrofe e o conjunto de consequências ambientais geradas no período pós-catástrofe.
O sistema natural é um sistema caótico e extremamente dinâmico, que não permite a constância das formas ou das distrofias ocorridas num dado momento. Torna-se assim fundamental o recurso a fontes históricas e a arquivos bibliográficos e cartográficos que possibilitem a compreensão e interpretação do espaço lagunar, ao longo do período em estudo.

 

«Isto dá cá muitas vezes?»
Os terramotos de Lisboa em Casas Pardas, de Maria Velho da Costa

Cláudia Coutinho
Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa

O terramoto que em 1755 destruiu o coração de Lisboa e semeou a morte entre os seus habitantes é resgatado da História de Portugal e do mundo por Maria Velho da Costa, em Casas Pardas. Publicado em 1977, este romance evoca a memória do terramoto do século XVIII a propósito de um outro que ocorre em Lisboa no ano de 1969. Com efeito, a Autora faz com que as tremuras do solo repercutam em vários momentos do romance, sendo esses mesmos tremores um importante fio condutor de toda a obra; por um lado, tal actividade sísmica metaforiza a crise e a instabilidade sociais e políticas que caracterizam o conturbado período da chamada «Primavera Marcelista», ao passo que, por outro, funciona como incentivo à esperança e à manutenção da fé no advento de uma nova era, regenerada e promissora. Estes dois terramotos – o de 1755, situado no passado, e o de 1969, situado no presente da diegese – são, enfim, o sinal premonitório de um terceiro «abalo», este de natureza política, que, como diz a própria Autora, “havia de vir vindo no dia vinte e cinco de Abril de 1974”. Muito embora a catástrofe natural do século XVIII tenha sido terrível, ela implicou ao mesmo tempo a selecção de vidas, a reescrita das artérias da cidade e a instauração de uma nova ordem; assim também neste romance se formula o desejo de uma catástrofe, semelhante a essa do passado, para que do caos possa nascer um novo cosmos, pleno de possibilidades.

 

O Terramoto de 1755 e as suas Implicações na Organização da Prática Musical na Capela Real e na Patriarcal

Cristina Fernandes
Universidade de Évora

A comunicação pretende analisar de que forma o Terramoto de 1755 determinou uma nova organização da prática musical em Lisboa, centrando-se na música sacra e na rede de instituições ligadas à corte. As mudanças são muito mais profundas do que a simples substituição dos espaços físicos ou as mutações no seio dos grupos de músicos profissionais ao serviço da corte, entendendo-se à orgânica das instituições e às directrizes na produção de repertório. Por um lado, a destruição da Ópera do Tejo remeteu para segundo plano a efémera primazia da ópera como instrumento de representação do poder régio. Por outro, o investimento monumental feito por D. João V no cerimonial litúrgico-musical da sua Capela Real (promovida a Patriarcal e com aspirações a rivalizar com a Capela Papal) teve de ser reconvertido no plano prático e simbólico. A reconstrução de Lisboa não contemplou a Capela Real e Patriarcal pelo que estas se cindiram de novo em duas instituições, ainda que interligadas por complexas teias de relações e ramificações. No plano musical, a representação do poder régio continuou a ter grande peso no cerimonial religioso, sendo agora repartida por dois planos distintos: um mais elitista (incluindo os músicos mais qualificados, na sua maioria italianos) e de natureza semi-privada na Capela Real da Ajuda e outro de maior visibilidade e impacto público, na Patriarcal, que depois do Terramoto transitou por diversos templos de Lisboa.

 

Análise de Diversas Tentativas de Explicar as Causas Naturais do Terramoto de Lisboa de 1755. O Papel Retórico das Novas Concepções e Métodos Científicos, em Particular da Experimentação, em Textos Portugueses e Espanhóis da Época.

Filomena Amador
Departamento de Ciências Exactas e Tecnológicas, Universidade Aberta

Alguns dos trabalhos publicados na península Ibérica, pós-terramoto, podem fornecer um corpus privilegiado de análise da recepção de novas ideias científicas em países, como Portugal e Espanha, na época periféricos relativamente à produção do conhecimento científico. Escritos em diferentes estilos literários e adoptando perspectivas diversas os textos que analisamos tiveram como principal intenção persuadir os leitores das causas naturais do tremor de terra. Os seus autores fizeram, com frequência, uso na sua argumentação de referências a diversas experiências físicas e químicas, contudo uma análise mais detalhada do papel retórico da experimentação é revelador das dificuldades de recepção na península das novas ideias científicas. As décadas de quarenta e cinquenta, do século XVIII, foram um período de transição de um paradigma escolástico, bastante enraizado, para as novas correntes da filosofia natural oriundas do centro da Europa, que se traduziu com frequência em hesitações ideológicas e num ecleticismo de tendência conservadora patente em muitos destes textos.

 

Os Centenários do Grande Terramoto de Lisboa na Imprensa Portuguesa: 1855 e 1955.

Gabriela Gândara Teneras
Universidade Nova de Lisboa

A comunicação proposta pretende estudar o eco dos dois centenários do terramoto de 1755 na imprensa periódica da capital. A análise centrar-se-á, assim, num conjunto de artigos publicados, na sua maioria, em jornais diários, datados de 1 de Novembro de 1855 de 1955.Seguindo as pistas fornecidas pela própria imprensa, tentaremos ainda estabelecer as relações possíveis entre os textos jornalísticos evocativos da célebre tragédia lisboeta e as iniciativas que, nas referidas datas, assinalaram os dois centenários da grande catástrofe de 1755.

 

As Cidades do Mal e a Profecia do Grande Terramoto

Gonçalo Cordeiro
Faculdade de Letras, Universidade de Lisboa

Numa concepção bíblica da História (em U) e procurando o diálogo entre textos vários (Bíblia, Juízo da Verdadeira Causa do Terramoto, História Universal dos Terramotos), o tema será desenvolvido na articulação de três pontos principais:
- QUEDA – Sob o signo de Babilónia: Lisboa na genealogia tipológica da cidade condenada;
- EXPIAÇÃO – Manifestações elementais da ira divina: casos paradigmáticos e a suprema escatolo¬gia das Sete Tigelas do Apocalipse (“um grande terramoto tal como nunca veio a haver”);
- ASCENSÃO – Lisboa sob o signo de Jerusalém: construção/restauração, pomba¬lismo/milenarismo (“novos céus e uma nova terra”).

 

As Consequências Psicológicas do Grande Terramoto de Lisboa de 1755: uma Abordagem Psico-Histórica

Luis Miguel Neto e Helena Águeda Marujo
Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação da Universidade de Lisboa

Com vista a uma proposta de identificação das consequências psicológicas e emocionais do Grande Terramoto de Lisboa de 1755 no carácter nacional (Bateson, 1972) os autores utilizam uma abordagem metodológica fundamentada na psico-história (Cocks e Crosby, 1987). Aquele propósito será concretizado por via da análise de discurso de textos que comentam o acontecimento, como os de Voltaire, Rosseau, e Kant (cit. in Newman, 2002).
As conclusões são, depois, perspectivadas em relação às formulações actuais, que equacionam a articulação entre experiência subjectiva e mudança cultural (Inghilleri, 1999), bem como a dados recentes da psicologia positiva, em particular do optimismo e do bem-estar subjectivo (Diener, Lucas & Oishi, 2002; Neto, Marujo & Perloiro, 1999; Seligman & Csikszentmihalyi, 2000; Seligman, 1991; Snyder & Lopez, 2002).

 

A Reconstrução Depois da Catástrofe:
O Caos como Condição de uma Nova Ordem

Inês Cordeiro Silva
Faculdade de Letras, Universidade de Lisboa

O meu trabalho irá partir do romance O Terramoto de Lisboa e a Invenção do Mundo, de Luís Rosa (2004), e do filme E a Vida Continua... (1991), do realizador iraniano Abbas Kiarostami (segundo de uma trilogia de que fazem parte Onde é a Casa do meu Amigo? e Através das Oliveiras, que funcionarão como pano de fundo do meu trabalho). Estas duas obras situam a sua acção depois da catástrofe, desvendando de que formas as personagens reconstroem a vida e o mundo. Do caos é possível refazer a vida. Mas esta é também a oportunidade de construir um novo mundo. A destruição é mesmo o momento que torna essa construção possível, fazendo com que o ser humano dê mais um passo em frente na História.
O romance de Luís Rosa remete para a reconstrução de Lisboa depois do Terramoto de 1755. De que maneira se cria uma nova forma de habitar uma cidade, e até mesmo um país? O filme de Kiarostami leva-nos a uma viagem pelo Irão depois do terramoto: a vida e a sua renovação são o tema que surge e se sobrepõe à morte e à destruição – a vida é consequência da catástrofe.

 

«Um Longo Terramoto»: Peça de Teatro Escrita e Representada por uma Turma de 6º ano na Área de Projecto

Isabel Maria Peixoto Braga
Escola Básica Integrada Elias Garcia, Sobreda

Na Área de Projecto, uma turma de 6º ano da Escola Básica 2,3 D.António da Costa, de Almada, manifesta uma vontade determinada de representar uma peça de teatro, num ambiente “antigo”. Os alunos questionados sobre a época que estavam a estudar na disciplina de História concluem que esta seria interessante para um teatro: o vestuário do séc XVIII diverte-os. Imaginam-se já em cima do palco, a representar com os vestidos tufados, os sapatos de fivela, as cabeleiras e as caras empoadas. Algumas sessões de pesquisa na Biblioteca levantam os factos mais importantes desse século, aprofundam aspectos do quotidiano, da cultura, do vestuário, do mobiliário. O Terramoto de 1755 surge, indubitavelmente, como o grande acontecimento que marcou o país, projectou-se no futuro, e sobre o qual o mundo não ficou indiferente. O dramatismo do fenómeno inesperado, o seu grau da destruição e sofrimento inspiram e desafiam a sua representação. Por outro lado, o esforço de reconstrução e a força de uma personagem como o Marquês de Pombal, merecem a atenção dos “pequenos dramaturgos”, ajudados pelas descrições, algo teatrais, de Oliveira Martins. Decidida a época, a inclusão de algumas personagens, de alguns acontecimentos históricos centrais e até de alguns outros “condimentos”, havia que construir a intriga. Em algumas sessões escreveu-se, no quadro, tópicos de um enredo que tinha de ser de todos, que tinha de se balançar entre a verdade histórica e a ficção, cabendo ao adulto preocupações, norteadas por uma vincada vertente pedagógica: realçar os aspectos de rigor (mesmo que a opção final fosse o não-rigor), fazer reflectir sobre aspectos éticos e morais, valorizar a criatividade e a liberdade dos ficcionistas, valorizar e ir ao encontro de aspectos de uma certa “cultura juvenil” de que os alunos são detentores. Após a intriga, foi a vez da construção do texto, o fazer e o refazer. Sobrou o 3º período para os cenários, desenhá-los e pintá-los; para o guarda-roupa e adereços: aproveitar, desenhar e construir; para as músicas e sons da peça, elementos fundamentais em determinados momentos; para o programa e a publicidade. Ao longo de todo o processo, mais e mais pesquisa para todos os pormenores, sendo a Internet uma fonte e um meio de comunicação preciosos. Ao mesmo tempo, ensaiar: mais de 20 alunos desdobrados em 31 personagens. Finalmente, foi a festa de duas representações, cujo produto final se concretizou acima das expectativas iniciais e… arrumar tudo, o que faz parte das festas. Esta, em particular com um certo amargor, - apesar de um lado alegre e humorístico da peça, a sensação permanente do drama inicial. Sei que estes jovens que escreveram e representaram esta peça “Um longo terramoto” assistiram às notícias do maremoto da Ásia, em Dezembro de 2004, de uma forma algo especial, provavelmente ainda mais intensa, pois eles tinham vivido, “por dentro”, o Terramoto de Lisboa de 1755, ainda há poucos meses... E temos a certeza de que ficaram diferentes…

 

Repercussões do Terramoto de Lisboa de 1755 na Evolução do Culto a Santo António

Isabel Santos
Instituto Politécnico de Leiria

O terramoto de Lisboa de 1755 constitui um marco determinante para a História da cidade sob diversos prismas, nomeadamente do ponto de vista político, social, económico e arquitectónico.
Pretende-se abordar, nesta comunicação, as consequências deste fenómeno no domínio da devoção a Santo António, ou seja, as repercussões que este terramoto teve no culto em sua honra, com base no relato de milagres que este santo operou nesta ocasião. Estes milagres de Santo António revelaram-se, quer preservando da destruição elementos simbólicos da sua igreja, quer salvando devotos dos efeitos devastadores deste terramoto, conforme se pode concluir a partir do estudo de documentos coevos que, inclusivamente, dão conta da invocação a Santo António aquando do terramoto em Pádua, a 17 de Agosto de 1756.
Será apreciada, neste trabalho, a nova dimensão que o culto a Santo António atingiu após este terramoto, que acabou por contribuir para a sua renovação e expansão. Neste âmbito, importa analisar a natureza e o impacto das acções em que se envolveu com especial empenho o povo de Lisboa, com o objectivo de reconstituir a igreja de Santo António, e que estão na origem de algumas tradições com expressão até à actualidade.

 

Pictorial Heritage of the 1755 Lisbon Earthquake

Jan T. Kozák
Geophysical Institute, Acad. Sci. of the Czech Republic

No catastrophic European earthquake of the pre-photographic period stimulated so many naturalists, philosophers and other savants to study and comment this disaster as the 1755 Lisbon event. This common interest was also reflected in creation of numerous images of event’s consequences and effects; not only in Portugal but in all Europe. Not only in 1755/56 but up to late 19th century.
In the present paper a collection of 96 depictions related to the Lisbon earthquake will be introduced, discussed and commented seen in three groups: the authentic compositions made in situ, their later copies fitting more-or-less real situations, and pure fantasies. Lisbon depictions will be compared with the portrayals of the other disastrous seismic events of the period, e.g., with the 1693 Val de Noto and the 1783 Calabria earthquakes.
It will be demonstrated through the presented images that in the course of the 18th century pictorial documentation of dynamic manifestations of the Earth developed as an important tool contributing considerably to later accepted rational approaches and principles of natural phenomena modern study.

 

O Último Dia de Günter Eich. 1755, Pretexto para 1955

Júlia Garraio
Instituto Politécnico da Guarda

Em 1955, o casal de escritores de língua alemã Günter Eich (1907-1972) e Ilse Aichinger (1921) visita Portugal, onde escreve a peça radiofónica Der letzte Tag (O Último Dia), um conjunto de cenas que tem como ponto unificador a localização na Baixa Lisboeta nas horas que antecederam o terramoto de 1755. Apesar da luminosidade dos cenários, marcados por um certo exotismo e cor local, são perceptíveis nas angústias das personagens alusões ao contexto de produção, a Alemanha de inícios dos anos 50: o peso do passado e da guerra, mulheres obcecadas pela perda de entes queridos, o perigo de um cataclismo mortífero. É acentuado o carácter inesperado da catástrofe como imagem da fragilidade do ser humano, sem qualquer domínio sobre a sua existência, vítima de um Criador impiedoso, impotente perante uma natureza ameaçadora que aniquila e reduz à insignificância as preocupações quotidianas e os perigos sociais. Nesta reflexão ressoam os medos do indivíduo da “guerra fria”, perplexo com uma ordem mundial que sentia como incontrolável e ansioso perante a ameaça de uma conflito mundial com armamento atómico, que significaria provavelmente o fim da Humanidade.

 

Alterando a morfologia e a alma da cidade: como foram sentidos em Lisboa os terramotos anteriores a 1755

Manuela Santos Silva
Faculdade de Letras, Universidade de Lisboa
Maria do Carmo Teixeira Pinto
Universidade Aberta

Os tremores de terra são fenómenos naturais que deixam sempre marcas no espírito de quem os vive. A sensação de perigo inevitável, a destruição de parte do património construído, a alteração da paisagem conhecida, são factores que perturbam os espíritos mesmo quando não há a lamentar a perda de vidas humanas. Portugal sofreu, ao longo da sua História, vários abalos sísmicos, alguns dos quais provocaram modificações quer na morfologia, quer nos estilos arquitectónicos das suas cidades e, sobretudo, da sua capital. Mesmo excluindo aquele sobre o qual existem mais indícios – até porque originou a construção de raiz de “novos bairros” em zonas totalmente destruídas –, o de 1 de Novembro de 1755, as informações sobre terramotos anteriores, as suas consequências e a forma como foram sentidos pelas populações que os sofreram, são mesmo assim numerosas. Aparecendo sobretudo em documentação de tipo cronístico, com intenção de deixar testemunhos para futuros leitores, as informações sobre os abalos sísmicos variam no seu rigor descritivo, na pormenorização dos efeitos na paisagem, na interpretação que é dada ao fenómeno. Para além de nos darem a conhecer os factos, são um magnífico instrumento que nos revela mentalidades, sentimentos colectivos e particulares.
O trabalho que pretendemos apresentar a este Colóquio tentará revelar assim a memória que ficou aos habitantes da cidade de Lisboa dos tremores de terra que abalaram a sua consciência colectiva e os obrigaram a alterar a estrutura da sua cidade.

 

Memória da Cidade Destruída

Margarida Louro
Faculdade de Arquitectura da Universidade Técnica de Lisboa

A pretexto das comemorações do 250º aniversário do grande terramoto de Lisboa, esta reflexão crítica sobre o estatuto da memória da cidade destruída, estabelece-se como uma abordagem prospectiva que partindo da situação actual reenquadra o valor da memória da cidade destruída como impulso criativo e interventivo.
Deste modo partindo de uma reflexão geral sobre o conceito da memória na contemporaneidade (conceitos, pressupostos actuais e sistemas de caracterização); até a abordagem crítica da cidade destruída (utopias, transformação e ruptura) esta abordagem valoriza a cidade herdada como suporte de intervenção.
A visualização de acções contemporâneas sobre troços dessa realidade, desmontam a linguagem do palimpsesto como atitude prospectiva e criativa actual. O exemplo do plano de pormenor da zona sinistrada do Chiado nas suas diversas dimensões do plano da destruição, do plano da memória e do plano da intervenção, assumem-se como campos privilegiados da reflexão.
Estrutura da apresentação proposta:
Parte I – Sobre o conceito de memória:
- conceitos e pressupostos estruturais
- memória e os discursos do fim
- memória e arquitectura
Parte II – Sobre a intervenção na cidade destruída
- memória e cidade
- transformação e ruptura nas formas da destruição
- intervenção e o contexto utópico
Parte III – Sobre o fragmento: o plano de pormenor da zona sinistrada do Chiado
- o plano da destruição
- o plano da memória
- o plano da intervenção

 

Catástrofe e Utopia: a regularidade cartesiana na engenharia militar portuguesa

Margarida Valla

As teorias urbanísticas desenvolvidas nos Tratados de Arquitectura Militar durante todo o século XVII e XVIII tornaram os engenheiros militares, os técnicos preparados para o enorme desafio que o Terramoto de 1755 provocou: a destruição da cidade e a sua reconstrução. A solução adoptada de edificar no mesmo local o centro da cidade, como recuperação da memória colectiva do sítio, acarretou problemas técnicos de construção, não só nos edifícios, mas em todas as infra-estruturas inerentes a um projecto de urbanização num terreno daquela natureza.
A experiência prática urbanística dos engenheiros militares foi adquirida, não só em Portugal, nas obras de fortificação moderna das cidades em Portugal mo século XVII, mas também, nos territórios portugueses, nomeadamente no Brasil.
O desenvolvimento teórico ministrado na Aula de Fortificação e Arquitectura Militar a partir de 1647, justificou a aplicação de um traçado racional na nova urbe, sempre baseado na geometria e matemática, uma regularidade assumida em qualquer traço desenhado pelo engenheiro militar. A Baixa pombalina continha dois grandes desafios à engenharia militar: a monumentalidade da obra na cidade-capitalLisboa, e a reconstituição de parte da cidade com um traçado moderno reformulando algumas pré-existências como o Rossio e o Terreiro do Paço.
Este foi um momento único para Portugal, demonstrar perante a Europa a actualidade do seu conhecimento na engenharia militar numa perspectiva urbanística e tecnológica, e produzir um plano “ideal” entre a lógica cartesiana e a inovação e adaptação às condicionantes do território nas suas componentes culturais e físicas.

 

O Sentir e o Sentido do Terramoto de Lisboa no Brasil – incursão histórica

Maria Adelina Amorim
CLEPUL

O cataclismo que abalou Lisboa em 1755 foi sentido/vivido no Brasil de forma particular, dadas as condicionantes da relação entre os dois espaços atlânticos. Se pela ordem política, aquele acontecimento teve fortes repercussões na Colónia – atente-se no modo como foi feito um aproveitamento do desastre natural para invocar punições divinas aplicadas a grupos e pessoas pouco gradas ao poder central em exercício, pela ordem dos afectos o acontecimento abalou os moradores do território brasileiro.
De que modo o terramoto de Lisboa afectou a vida brasileira? Que manifestações perpassaram através da documentação e da literatura? Quais as consequências objectivas? Que sentido tomou o vivido?

 

Ficção Portuguesa Recente sobre o Terramoto de 1755

Miguel Real
Universidade Aberta

Analisa-se o corpus literário constituído pelos três últimos romances publicados em Portugal sobre o terramoto de 1755: Lilias Fraser (2001), de Hélia Correia, O Terramoto de Lisboa e a Invenção do Mundo (2004), de Luís Rosa, e O Segredo Perdido. Lisboa, Terramoto de 1755 (2005), de Júlia Nery. Animados de fundo e estilo realistas na descrição do terramoto, evidenciciando narrativamente os factos históricos da destruição de um terço de Lisboa, seguindo testemunhos de estrangeiros, nomeadamente de Jácome Ratton, os três romances diferenciam-se, no entanto, pelas técnicas narrativas usadas, que têm em comum a lateralização da descrição do terramoto no seio da acção diegética. Júlia Nery historiografa ficcionalmente a existência de um cofre de prata contendo um manuscrito secreto entre a segunda metade do século XVIII e o ano de 2003; Luís Rosa aborda como tema central a vida e obra do arquitecto-engenheiro Eugénio dos Santos, enquadrando-as na atmosfera política e cultural de Lisboa da segunda metade do século XVIII; Hélia Correia historiografa a vida da escocesa Lilias Fraser entre a batalha de Culloden, na Escócia, em 1746, e o encontro, em Lisboa, no final do século, entre Lillias e Blimunda, personagem de Memorial do Convento, de José Saramago. A descrição e narração de cenas do terramoto de 1755 nos três romances produz um efeito de veracidade no seio da trama ficcional, contribuindo decisivamente para que todos sejam animados de um comum realismo histórico, atingindo por vezes, sobretudo em Luís Rosa e Júlia Nery, momentos de vero naturalismo na descrição de episódios humanamente dolorosos, consequência do terramoto. Porém, as técnicas narrativas usadas por Júlia Nery –jogando com três tempos diferentes e três blocos de personagens, com explícita manipulação da técnica de mise-en-abîme – e Hélia Correia – apelando a um registo de maravilhoso e de sobrenatural, encadeado harmonicamente com o registo histórico factual – elevam e transfiguram o documentarismo realista da descrição de episódios avulsos do terramoto em verdadeira obras narrativas, de pleno valor literário. Diferentemente, o romance de Luís Rosa, seguindo a par e passo os acontecimentos políticos e sociais ao longo de grande parte da vida de Eugénio dos Santos (ascensão política do Marquês de Pombal; expulsão dos jesuítas, atentado contra D. José, condenação dos Távoras e do Duque de Aveiro,...), restando-se num registo exclusivamente histórico e envolvendo o seu romance de um estilo pedagógico, de profundo teor ideológico na defesa da obra de Eugénio dos Santos e na defesa (crítica) da política de Pombal, transforma a sua narrativa num verdadeiro romance de tese.

 

O Terramoto e a Génese da Consciência de Património em Portugal

Paulo Simões Rodrigues
Universidade de Évora

A historiografia portuguesa tem encontrado na extinção das ordens religiosas e na consequente alienação dos seus bens – de que resultou a venda, a destruição ou o simples abandono de uma parcela significativa dos imóveis e objectos móveis eclesiásticos -, em 1834, o factor despoletador daquilo que a contemporaneidade convencionou designar de consciência patrimonial. Nós pretendemos e propomos demonstrar que a génese dessa consciencialização se terá consubstanciado anteriormente, em concreto com o Terramoto de 1755, cujos efeitos destrutivos terão evidenciado a fragilidade da condição material dos monumentos que atestavam a ancestralidade das estruturas sociais, políticas e culturais (com particular destaque para as religiosas) vigentes. Gerou-se a partir de aqui uma nova atitude em relação à arquitectura do passado, patente nas Memórias Paroquiais, as quais, na sua maioria, não se limitaram a inventariar os danos e prejuízos sofridos pelos edifícios religiosos, abrangendo também a narrativa da sua história que, não raras vezes, antecedeu a fundação do mosteiro, do convento ou da igreja em causa. Mostrá-lo-emos através da análise das Memórias Paroquiais de Lisboa e Évora e de publicações sequentes que nos parecem seguir o modelo de organização editorial das primeiras, como a Descripção dos Monumentos Sacros de Lisboa… (1833) de Luís Gonzaga Pereira.

 

Olhar o Outro: o Público de Teatro em 1755

Tiago Bartolomeu Costa
Faculdade de Letras, Universidade de Lisboa

Quando falamos de teatro em 1755, é natural que imediatamente nos surjam dois nomes: a Ópera do Tejo e a actriz italiana Zamperini. Ambos os exemplos indicam bem a influência italiana, quer na construção de uma ideia de modernidade, quer no teatro como palco de influências. No que isso representa, também, de posição da igreja, valores morais, decisões políticas e planos de educação. Entre uma ideia de fausto e a necessidade de um projecto que afirmasse o teatro como um meio de educação do povo, o Marquês de Pombal preconiza uma dignificação da actividade teatral, à qual não vai ser alheia a constituição, menos de um ano depois, da Arcádia Lusitana. A comunicação que se apresenta procurará identificar o público de teatro da altura, época na qual se começava a esbater uma fronteira teatral entre a corte e o povo, devido sobretudo ao facto do teatro deixar de ser visto como um acontecimento esporádico para passar a uma relação próxima com a vida sócio-económica da cidade. Dar-se-à conta das diferenças de espectáculos e comportamentos dos públicos, bem como compreender a forma como o teatro foi utilizado como um veículo de propaganda e persuasão.